“Teachers, leave the kids alone”

Chama atenção a preocupação com a segurança que levou o Colégio Rio Branco, em São Paulo, a adotar as câmeras de segurança dentro das salas de aula. De acordo com reportagem de Fábio Takahashi e Bruno Benevides publicada no dia 26.09 pela Folha de São Paulo, após notar as câmeras um grupo de estudantes do ensino médio decidiu ficar no pátio, até que a diretora se manifestasse. O protesto levou 107 alunos à suspenção por um dia.

“Ficamos assustados com as câmeras, ninguém explicou o motivo. Mas o pior foi a suspensão e a falta de diálogo”, declarou um estudante para a referida reportagem. Os fatos indicam que a escola pretende acompanhar os passos dos alunos de perto – fazendo “zelar pelo patrimônio dos alunos e do colégio”, nas palavras da diretora Esther Carvalho. Para ela as câmeras impediriam a “indisciplina” das turmas. Parece que em matéria de controle, as medidas adotadas obterão êxito. Talvez os alunos menos apegados a “ordem” e as regras pedagógicas passem por algum processo de condicionamento, em nome da segurança. Quanto à educação, fica uma impressão de superexposição, de hiper-realismo desenfreado em busca da mecanização do aluno frente ao condicionante.

Pensando no totalitarismo serial retratado no clássico Admirável Mundo Novo, livro do inglês Aldous Huxley, a preocupação da investida pedagógica pode residir bem atrás das intenções de cautela e segurança, que em excesso pode levar à perda de liberdades fundamentais como: o direito de ser diferente, de ser uma individualidade com ponto de vista e direito a opinar. Por isto a declaração da psicopedagoga Maria Irene Maluf, que assina análise do caso também na Folha, é preocupante. “Enquanto visíveis e com finalidade clara e legítima, esses dispositivos não trazem problemas a ninguém, pois o aspecto intrusivo acaba por ser deixado de lado frente aos evidentes benefícios que agregam”.

Em outra passagem ela alude à possibilidade de que a maioria, entre alunos e professores, deveria escolher sobre o uso das câmeras. A cada declaração publicada pela matéria, a presente reflexão leva a compreensão de que o condicionamento já obteve sucesso e atestado de sua utilidade pública. A reportagem afirmou ter procurado quatro mães de alunos do colégio e todas sustentaram a instituição, optando pelas câmeras.

Abaixo seguem frases (reportagem da Folha) de pesquisadores e ex-alunos celebridades para ilustrar os pensamentos que circulam sobre a questão.

FRASES

“Num presídio, entendo a necessidade de câmeras. Numa escola, não. A segurança e a disciplina podem até melhorar, mas o aluno não vai seguir as regras porque acredita nelas”
SILVIA COLELLO
pesquisadora da Faculdade de Educação da USP

“A instalação das câmeras é legítima, todos sentimos falta de segurança. E vai ajudar a diminuir a indisciplina e até o bullying. [Sobre a suspensão], a escola fez bem, porque os alunos foram tiranos”
QUÉZIA BOMBONATTO
presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia

“Sou a favor de que os alunos possam se manifestar sobre qualquer coisa, desde que não quebrem nada nem machuquem ninguém. Sou contrário a uma câmera dentro da sala de aula. Acho que o excesso de vigilância traz um mínimo de confiança”
DAN STULBACH, 43
ator, estudou no colégio Rio Branco de 1976 a 1986

“Não vejo problemas, desde que o uso das imagens seja restrito a hipóteses realmente importantes, e não para ficar vigiando quem jogou bolinha de papel no coleguinha…”
RODRIGO VENTIN SANCHES, 33
advogado, estudou no colégio de 1983 a 1995

“Em princípio, não vejo com bons olhos essa forma de controle em sala de aula. Penso que pode comprometer a autonomia do professor, além de infantilizar os alunos que, no limite, sempre estarão sob o controle dos pais”
ANDRÉ MOUNTIAN, 34
professor universitário, estudou no colégio de 1985 a 1995

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Brave New World

Para quem ficou interessado na história do livro  “Admirável Mundo Novo”, aqui segue uma adaptação cinematográfica da obra de Aldous Huxley..O filme “Brave News World” (1980), feito pela BBC, recria a narrativa de um  futuro, onde um estado totalitário consegue controlar até a genética dos cidadãos, além de banir o amor. Já quem tiver mais tempo, pode se dedicar à leitura da obra, de graça, na internet.

A perenidade de “Admirável Mundo Novo”

Nos idos de 1930 a Europa vivia a ressaca da Primeira Grande Guerra Mundial enquanto se preparava para enfrentar a Segunda. A União Soviética engrandecia seu exército sob o comando de Josef Stálin e tradicionais potências, como Inglaterra e França, viam surgir na vizinha Alemanha uma ameaça que poderia reduzir o mundo à raça ariana.

A disputa territorial que transformava o Velho Continente em uma mina prestes a explodir clamava por armas de destruição mais poderosas. O arsenal bélico fortificava-se em meio à ambição de que algo mais devastador pudesse ser apresentado como diferencial.

Centros de pesquisa buscavam na física e na química elementos para descobrir um composto letal, capaz de detonar milhares de vidas com apenas uma explosão. Nascia assim a bomba atômica, que até hoje nos assombra.

Em 1932, então aos 38 anos, o britânico Aldous Huxley assistia a tudo aquilo com inquietante perturbação. “Admirável Mundo Novo” era publicado naquele ano como resultado da confusão mental que o contexto a que o autor se expusera lhe causou. Huxley centra sua crítica nos aspectos desumanizadores do progresso científico e material, refletidos na estabilidade social por meio de um sistema de controle à base do amor à servidão.

A obra narra uma sociedade num futuro em que pessoas são formadas biologicamente em laboratórios e expostas a condicionamento ao logo de suas vidas. Os Controladores Mundiais são os responsáveis por garantir harmonia às normas de convívio pré-determinadas.

No Centro de Condicionamento e Incubação de Londres, o processo de reprodução em série é feito de acordo com o modelo de castas existente: Alfas e Betas comandam a sociedade composta também por Gamas, Deltas e Ípsilons, relegados a oferecer a força de trabalho. Não há meios de ‘subir na vida’. Uma vez destinado a essa condição, assim sempre será.

A história se passa em 632 “DF” (Depois de Ford), em alusão ao empresário que simbolizou a linha de produção de automóveis no início do século passado nos EUA. Ford, aliás, é apresentado como o Deus de “Admirável Mundo Novo”, que sustenta valores radicalmente diferentes dos praticados por nós.

Conceitos familiares são ignorados ao ponto de a palavra “mãe” causar arrepios nos personagens do livro. Relacionamentos amorosos estáveis estão fora de questão na obra. “Um pertence a todos” é o lema seguido por quem sequer compreende o que são laços familiares, uma clara crítica ao avanço da promiscuidade sexual.

A adoção destes valores se dá pelo fato de, no passado, a relação com filhos e animais terem causado emoções que poderiam levar as pessoas a comprometer a estabilidade social. O novo regime passou a vigorar como alternativa ao enfraquecimento da sociedade que, depois de muitas guerras, viu nos controladores a saída para um mundo mais “organizado” e “justo”.

A dificuldade de assegurar o controle leva à necessidade da criação de uma droga para conter eventuais crises de infelicidade. O delicioso soma é a alternativa de “Admirável Mundo Novo” a quem, por acaso, se sentir de deslocado em uma sociedade tão “perfeitamente estruturada” como essa. “Meio grama para um descanso de meio-dia, um grama para o fim de semana, dois gramas para a excursão ao esplêndido Oriente, três para uma sombria eternidade na Lua”, escreve o autor.

Em 1946, 14 anos depois, Aldous Huxley rascunha num prefácio impressões inéditas sobre a obra. Como um livro que trata do futuro, segundo ele, à época em que foi concedido aos leitores, a ideia era que estes pudessem escolher entre a demência, por um lado, e a loucura. O tema central não é a evolução da ciência em si, mas os aspectos resultantes à medida em que o progresso afeta os seres humanos.

Para Huxley, a menos que nos descentralizemos para usar filosofia, psicologia e biologia a fim de buscar a liberdade dos indivíduos, este horror utópico se abaterá sobre nós na forma de totalitarismos governamentais, nos quais a bomba atômica poderá ser protagonista de disputas sangrentas sob a bandeira da estabilidade social.

A previsão era que a cena futurista de “Admirável Mundo Novo” levasse 600 anos para se consumar. Na revisão, o prazo foi encurtado para 100 anos. Ainda temos 20 anos até lá…

Se passaram oitenta anos da escrita da obra em questão. O estado de alerta chega à sobremodernidade como uma realidade propagada e absorvida globalmente.  Debaixo de uma rede de intenções econômicas, os Estados Unidos lidera um grupo de nações, principalmente as integrantes do G5, sob o argumento de garantir segurança e liberdade por meio de controle da tecnologia atômica e da força bélica.

A obra de Huxley permanece mais atual do que nunca, assim como 1984, de George Orwell.  Instigam os acontecimentos que ainda estão no porvir do nosso mundo, com uma questão fundamentanda na obra do autor.  Huxley teria acertado em cheio ao traçar o status quo da nova modernidade, ou estamos apenas adentrando na ante-sala do Admirável Mundo Novo?