“Padrão Globo” ou o “Admirável Mundo Novo”?

Ao assistir o espetáculo diário construído ao bel prazer dos veículos de comunicação da grande imprensa brasileira, tenho a impressão de que o latifúndio midiático, controlado por meia dúzia de famílias no Brasil, segue uma cartilha baseada milimetricamente no livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.

Oras, podemos pensar que a imprensa do mundo inteiro, inserida em um mesmo sistema capitalista, aja da mesma maneira. Ledo engano. Pressinto por aqui uma total e particular falta de limites quanto às estratégias de manipulação empregadas pela mídia. Ou pela elite brasileira. Se é que não falamos da mesma coisa. Lendo este clássico de Huxley, é impossível não pensar na rede Globo, com suas super novelas e com a sua fingida imparcialidade na condução de assuntos de cunho social e político, como metáfora de um mundo onde as pessoas são  pré-condicionadas, bio e psicologicamente, a viverem em harmonia com as leis e regras sociais, assim como  colocado no livro. A nossa imprensa é especialista nesta ação: Se ela não estimula, já que isso seria exigir demais, ela evita, com todas as suas forças, o crescimento de uma sociedade mais politizada. Tudo isso porque faz outra lição de casa do Admirável Mundo Novo: o autor prevê e ironiza no livro, ao classificar cidadãos em alfas, betas e gamas, uma sociedade organizada por castas — configurada no nosso “mundo real” pelas classes socias. No mundo hipotético traçado por Huxley, dificilmente um beta deixa se der beta e assim por diante.

O próprio conteúdo das novelas globais, com seu efeito viciante, expressa o objetivo da emissora de condicionar comportamentos. Seduzindo os milhões de telespectadores Brasil afora, a Globo garante com isso seu controle no campo da política, favorecendo seus candidatos e partidos e as grandes empresas e multinacionais. O “show do mensalão”, às vésperas das eleições, é um bom exemplo de sua manipulação.

Para que as previsões de Huxley fiquem longe daqui, o ideal seria manter, sim, a atual liberdade de expressão que temos no Brasil. Não temos censura. O que falta é transparência. E uma mídia realmente democrática, em que redes públicas tenham o mesmo espaço do que as empresas privadas de mídia. E cada veículo de comunicação deveria assumir suas inclinações políticas e deixar claro para quais candidatos presta o seu apoio. As novelas, funcionando como um panis et circenses, servem para anestesiar a mente da pessoas para que estas, inocentemente, continuem a acreditar na neutralidade e nas “boas intenções” dos jornais televisivos.

Bolas, fezes e audiência

Paixão do brasileiro, o futebol dispõe de características ímpares.
Por ele nos esgoelamos nos estádios, mal acomodados, debaixo de chuva e sol estonteante, aglomerados em meio a milhares de desconhecidos.
Brigamos pelo melhor lugar do sofá e pelo direito exclusivo do uso da TV durante os angustiantes 90 minutos de bola rolando. Ainda que a patroa chie.
Reservamos no congelador as cervejas mais geladas e rosnamos se alguém ousar se aproximar delas. Afinal, esta é a companhia de que precisamos em situações de alta tensão e entrega.
Driblamos compromissos para não perder a hora do apito inicial e até viajamos atrás do time que nos representa. Os chefes que o digam!
Ganhamos e perdemos relacionamentos, amorosos ou laços de amizade. Conexões, a bem verdade, como nos sugere Zygmunt Bauman.
É talvez a única atividade reconhecidamente comercial pela qual nos doamos sem questionamentos, sem consciência entre custo e benefício. Um ato incondicional, por vezes doentio, mas, sobretudo, um autêntico caso de amor à servidão.
De olho neste lucrativo filão, o programa ‘Custe o Que Custar’, da TV Bandeirantes, idealizou o concurso ‘Um louco no Japão’, cuja proposta é insuflar esta irracionalidade enraizada.
Ganha a promoção quem demonstrar a maior loucura pelo Corinthians, segundo time mais popular do país. O prêmio? Uma viagem, com acompanhante, para ver de perto, em dezembro, a final do Mundial de Clubes entre o time brasileiro e o inglês Chelsea.
Lançada em setembro, em menos de um mês a promoção estimulou centenas de vídeos. Na última segunda-feira, 1, quando o ‘CQC’ foi ao ar pela última vez, alguns foram exibidos. Para minha indignação.
Bizarrices de todos os tipos estão reunidas ali: há quem leve chutes e socos para tentar ser escolhido; quem tatue o símbolo do timão na região pubiana; e, pasmem, até quem coma fezes de um bebê para comprovar, em rede nacional, que é o mais louco do bando.
Palavras não dão a correta dimensão do absurdo a que se chega com uma ideia destas.
A dignidade é convidada ao esquecimento diante da promessa de uma viagem a Tóquio, verba irrisória para um programa de TV, que assiste a tudo do alto de sua irresponsabilidade e desrespeito. Uma boa fórmula para angariar audiência, convenhamos.
Abaixo, o vídeo de “Um louco no Japão”:

Soma Tablets

Huxley Laboratories

“…se alguma vez, por um acaso infeliz, um abismo de tempo se abrir na substância sólida de suas distrações, sempre haverá o Soma, o delicioso Soma, meio grama para um descanso de meio dia, um grama para um fim-de-semana, dois gramas para uma excursão ao esplêndido Oriente, três para uma sombria eternidade na lua; de onde, ao retornarem, se econtrarão na outra margem do abismo, em segurança na terra firme das distrações e do trabalho cotidiano.”

Fonte: https://www.facebook.com/issocompensa

Cinematographo

Com o objetivo de resgatar as primeiras sessões de cinema o MIS (Museu da Imagem e do Som) exibirá hoje (7), às 16h, o filme “Tempos Modernos” (1936). Um dos maiores clássicos escrito, dirigido e protagonizado por Charlie Chaplin contará com a trilha sonora executada ao vivo pelo GEM – Grupo Experimental de Música.

“Tempos Modernos” faz parte da programação do projeto Cinematographo, que conta com a projeção de filmes mudos sonorizados por músicos ao vivo.  O filme retrata a vida urbana nos Estados Unidos logo após a crise de 1929, quando a depressão levou grande parte da população ao desemprego e à fome.  “O Vagabundo,” personagem de Charlie Chaplin, tenda sobreviver em meio ao mundo moderno e industrializado.

A trama do filme tem como foco a vida na sociedade industrial, na produção em massa e no capitalismo crescente.

(Fonte: Folha de São Paulo; MIS)

Disclosure – Revelação de informações

O vídeo publicado na internet intitulado Amazing Mind Reader Reveals his “Gift” mostra um vidente com poderes para “ler pensamentos”.  Dave adivinha informações pessoais e fatos da vida dos participantes. No vídeo, gravado em Bruxelas, em 12 de setembro de 2012, um grupo de pessoas aleatórias foi informado de que Dave seria o protagonista de um programa de TV. Porém, na realidade tratava-se de uma campanha da Federação Bancária Belga – Febelfin -, em que todas as informações sobre as pessoas foram coletadas diretamente na internet.  (Fonte: G1, acesso 1/10/2012; Febelfin, acesso 1/10/12)

Nos bastidores do programa uma equipe de pesquisadores vasculhava o perfil dos participantes nas redes sociais, incluindo o Facebook, utilizando apenas o nome completo delas.  Dave, o “vidente”, usava um ponto eletrônico a partir do qual conseguia “ler” o pensamento das pessoas, revelando informações, a rigor, sigilosas, tais como: dados de conta bancária, valores de investimentos, nome dos melhores amigos, fatos da vida amorosa etc.

O vídeo termina com as seguintes frases: “Sua vida inteira está online. E pode ser usada contra você.

É possível relacionar a situação apresentada no vídeo com a temática abordada no livro Admirável Mundo Novo e na literatura acadêmica analítica sobre os problemas apresentados.  Na “sociedade confessional”, categoria utilizada por Zygmunt Bauman (Vida para consumo, 2006), tem-se a impressão de que as pessoas estão condicionadas a uma necessidade psicológica de revelar nas redes sociais informações precisas e detalhes íntimos de suas vidas pessoais.  Para melhor elucidar essa informação citamos Bauman,       

 “Os adolescentes equipados com confessionários eletrônicos portáteis são apenas aprendizes treinando e treinados na arte de viver numa sociedade confessional – uma sociedade notória por eliminar a fronteira que antes separava o privado e o público, por transformar o ato de expor publicamente o privado numa virtude e num dever públicos, e por afastar da comunicação pública qualquer coisa que resista a ser reduzida a confidências privadas, assim como aqueles que se recusam a confidenciá-las.” (Bauman, 2006).

O pensador Eugéne Enriquez também nos ajuda a entender o contexto do vídeo, ao afirmar que: “A nudez física, social e psíquica está na ordem do dia.” (apud Bauman, 2006)

Fazendo uma analogia com o Admirável Mundo Novo, será que as pessoas estão se auto-condicionando psicologicamente a viver em uma realidade onde não haveria ética e valores morais? Uma realidade onde o “Soma” da felicidade equivaleria ao soma da notoriedade. Esse comportamento elimina qualquer tipo de reflexão ou raciocínio básico de dúvida e insegurança, ao expor informações pessoais a partir de um monitor como se fora um diário privado e pessoal onde quem tem acesso é apenas e somente o detentor de tais informações.

“Seja vigilante” esse é o conselho dado pela Federação Belga dos Bancos.  Filtrar e moderar aquilo que se coloca nas redes sociais, é o mínimo que se pode esperar antes de apertar o botão… compartilhar.      

Não se controla o selvagem

creditos: Daniela Rosolen

Esta foto foi tirada na semana passada. A pichação se encontra no muro de uma universidade de medicina. Provavelmente faz alusão ao uso de animais em experimentos médicos. Mas poderia muito bem se encaixar na realidade de John, o Selvagem do “Admirável Mundo Novo”. Ele, assim como os animais não pode ser controlado pelo sistema criado na obra de Aldous Huxley. Veio de uma realidade totalmente diferente, onde há liberdade, os sentimentos são valorizados, há criação de vínculo entre as pessoas, não há condicionamentos para comportamentos sociais e crenças…

De certo modo, para os habitantes do “Admirável Mundo Novo”, criados em tubos de laboratório, o Selvagem realmente é um animal, não somente por ter sido gerado por uma mulher, mas por ser considerado inferior. Ele não se adequa ao novo sistema e nem quer se adequar a ele. O Selvagem tem uma visão distinta de mundo, de sociedade. Ele leu Shakespeare, diferentemente dos Alphas, Betas, Gamas, Deltas e Ys que foram privados da literatura clássica, de obter conhecimento além do que era permitido. Ele pôde fazer livremente suas escolhas, até o momento em que viveu em Malpaís. Pôde questionar. Se sofrer, não precisou de doses de soma para se livrar do que sentia. Ele experimentou um amor, embora bem primitivo e platônico. Ele não conheceu da tecnologia e seus benefícios. Mas também não experimentou de seus malefícios para o corpo e para a alma. É ele, justamente ele, que é o incivilizado da história, a aberração.

Não só na obra de Huxley, mas na sociedade atual, podemos encontrar “selvagens”. Gente tentando fugir do padrão estipulado como norma, fugindo das verdades da mídia, questionando os valores e os poderes. Estes “novos selvagens” também são vistos com olhos impiedosos pelo sistema. Às vezes até com uma parcela de admiração, como a que o próprio Bernard chegou a sentir no inicio por John. Mas definitivamente são excluídos, difamados. Não chegam a ser segregados em ilhas, como no caso do livro. Podem até encontrar outros “selvagens” que acolham seus princípios. Mas vivem à margem da sociedade massificada, tentando provar que tem alguma razão, que o mundo não segue apenas uma linha, um sentido. O mundo é múltiplo, as ideias também. Mas enquanto ainda vivemos acreditando em verdades únicas, ou meias-verdades, os “selvagens” continuarão a existir segregados pelo planeta.