A tempestade de Shakespeare

Imagem “Ó, maravilha! 

Que adoráveis criaturas aqui estão! 

Como é belo o gênero humano! 

Ó Admirável Mundo Novo 

Que possui gente assim!” 

(William Shakespeare, A Tempestade, Ato V) 

 

 Publicada em 1611, A Tempestade, última peça de Shakespeare, ainda alaga o pensamento do homem contemporâneo (choveu em Huxley em 1932) com suas metáforas e personagens complexos, que servem como referência para que analisemos variadas questões atuais. Atemporal e universal, a história foi escrita em uma época na qual o homem europeu lançava-se a novos mundos com a expansão marítima, e nos mares de seu imaginário viviam seres monstruosos, mares tenebrosos, zonas tórridas e certeza de que a terra era quadrada.

 Não por acaso, Huxley se vale de algumas referências do universo shakespeariano para dar o título de seu livro mais famoso, Admirável mundo Novo, após 321 anos da escrita de A Tempestade. Quais serão as semelhanças de ambos?

 Próspero e seu admirável mundo

Vingança, conspirações, traições e sede de poder são alguns dos temas explorados em A Tempestade. Próspero, Duque de Milão, e sua filha Miranda são obrigados a buscar abrigo em uma pequena ilha após algumas desavenças políticas. Neste recanto “selvagem”, o aristocrata conhece Caliban, um escravo em terra, disforme e primitivo que logo lhe devota fidelidade como servo e Ariel, espírito servil, assexuado e capaz de se metamorfosear em água, ar ou fogo. Símbolo da civilização (da concepção idealizada do ser humano), mais espiritual que material – emblema dos mais elevados desejos da Humanidade- o duque se vê contraposto a ambos os seres, principalmente a Caliban, representação dos instintos bestiais, desprovido de virtudes.

Pai e filha lutam para sobreviverem na selvagem e misteriosa ilha, até que os dons intelectuais e místicos de Próspero e Ariel se juntam, gerando um naufrágio com o intuito de que os adversários do “governante” da ilha, lá reunidos, sejam levados à loucura. Aproveitando-se da situação, atrai também para este refúgio um príncipe, noivo em potencial para a filha.

Próspero usa sua magia e sabedoria para submeter os demais personagens, é por meio do temor de seus súditos que legitima sua dominação. É senhor, porém busca a liberdade: “Libertai-me pois da ilha”, diz ele.  Manipula a todos instaurando a sua moral e exige obediência, uma vez que controla também a vida de seus escravos. O poder (conhecimento) faz com que ele saiba a respeito de seus súditos e segredos da natureza, acompanhe os fatos sob uma ótica privilegiada, escravize o filho herdeiro, controle os espíritos da ilha e ordene a tempestade.

Quando era duque em Milão, embora amado pelo povo, porém era considerado um mal governante, pois não sabia governar, passava muito mais tempo em sua biblioteca. No entanto, na ilha, se mostra um astuto governante para os valores da época, pois é ao mesmo tempo obedecido, temido e odiado por seus súditos. É na ilha que Próspero pretende endireitar o novo mundo.

Próspero e seu súdito Caliban são símbolos da dicotomia entre a civilização e a selvageria (incivilidade). Não falam o mesmo idioma, e no primeiro contato com Caliban, Próspero educa e media o súdito conforme seus costumes e logo depois o escraviza, como acontecia nas colônias em que era imposta a cultura da metrópole e a população local é sempre escravizada e obrigada a trabalhar para os forasteiros exatamente como ocorre com os habitantes da ilha. Qualquer semelhança com o colonialismo a partir do século XV não é mera coincidência, os atos do duque são muito próximos da forma como a Europa mantinha relação com suas colônias. De acordo com Will Durant em A História da civilização (1964), a dominação por parte de uma minoria estrangeira acontece de forma que haja uma pretensa superioridade racial sobre uma maioria nativa materialmente inferior. Argumenta que “a civilização europeia avançada e tecnificada impõem-se em todos os aspectos a cultura autóctone, através de diversas formas de organização política”.  

Futuro Anunciado

Após 321 anos, Huxley retoma parte das referências de Próspero e seu novo mundo. A Europa como sinônimo de imposição cultural divide essa tarefa com os EUA. No cenário de Huxley ainda se encontram muitos Calibans, ora apaixonados pela servidão, ora considerado primitivos por não fazerem parte da maioria “civilizada”, essa entregue aos valores e dogmas impostos, que levam o nome de globalização, o modo civilizatório usado com os selvagens.  

 Além disso, muitas são as referências a Shakespeare. O personagem de John, que aprendeu a ler com o autor inglês, deseja ser livre e aprender mais sobre a vida. Apesar de se apaixonar por Lenina, não corresponde, pois inspirado pelos poemas, acredita que se deve amar com o espírito e não de maneira superficial e carnal.

 Admirável Mundo Novo é uma crônica do futuro anunciado, escrito entre a 1ª Guerra e o início da 2ª Guerra Mundial, cujo cenário era de descobertas científicas, avanço do nazismo e sua ideologia de eugenia de raça (superioridade de uma casta), o ideário fordista de produtividade do proletariado ante a uma esteira de produção.  E ainda, a tecnologia a serviço do homem, e o homem à mercê desta mesma tecnologia. 

 Feliz ficaria Próspero se houvesse descoberto o Soma para que seus escravos não conhecessem a sensação de infelicidade; Mais satisfeito ficaria também se usasse o método de dominação no novo mundo de Huxley, em que ortodoxias e ideologias são ministradas em cursos durante o sono. Tudo isso facilitaria seu trabalho de dominação. Portanto, é bom tomar cuidado: muitos descendentes de Próspero por aqui andam nesse nosso pré-admirável mundo novo.

 

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