Não se controla o selvagem

creditos: Daniela Rosolen

Esta foto foi tirada na semana passada. A pichação se encontra no muro de uma universidade de medicina. Provavelmente faz alusão ao uso de animais em experimentos médicos. Mas poderia muito bem se encaixar na realidade de John, o Selvagem do “Admirável Mundo Novo”. Ele, assim como os animais não pode ser controlado pelo sistema criado na obra de Aldous Huxley. Veio de uma realidade totalmente diferente, onde há liberdade, os sentimentos são valorizados, há criação de vínculo entre as pessoas, não há condicionamentos para comportamentos sociais e crenças…

De certo modo, para os habitantes do “Admirável Mundo Novo”, criados em tubos de laboratório, o Selvagem realmente é um animal, não somente por ter sido gerado por uma mulher, mas por ser considerado inferior. Ele não se adequa ao novo sistema e nem quer se adequar a ele. O Selvagem tem uma visão distinta de mundo, de sociedade. Ele leu Shakespeare, diferentemente dos Alphas, Betas, Gamas, Deltas e Ys que foram privados da literatura clássica, de obter conhecimento além do que era permitido. Ele pôde fazer livremente suas escolhas, até o momento em que viveu em Malpaís. Pôde questionar. Se sofrer, não precisou de doses de soma para se livrar do que sentia. Ele experimentou um amor, embora bem primitivo e platônico. Ele não conheceu da tecnologia e seus benefícios. Mas também não experimentou de seus malefícios para o corpo e para a alma. É ele, justamente ele, que é o incivilizado da história, a aberração.

Não só na obra de Huxley, mas na sociedade atual, podemos encontrar “selvagens”. Gente tentando fugir do padrão estipulado como norma, fugindo das verdades da mídia, questionando os valores e os poderes. Estes “novos selvagens” também são vistos com olhos impiedosos pelo sistema. Às vezes até com uma parcela de admiração, como a que o próprio Bernard chegou a sentir no inicio por John. Mas definitivamente são excluídos, difamados. Não chegam a ser segregados em ilhas, como no caso do livro. Podem até encontrar outros “selvagens” que acolham seus princípios. Mas vivem à margem da sociedade massificada, tentando provar que tem alguma razão, que o mundo não segue apenas uma linha, um sentido. O mundo é múltiplo, as ideias também. Mas enquanto ainda vivemos acreditando em verdades únicas, ou meias-verdades, os “selvagens” continuarão a existir segregados pelo planeta.

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