Bolas, fezes e audiência

Paixão do brasileiro, o futebol dispõe de características ímpares.
Por ele nos esgoelamos nos estádios, mal acomodados, debaixo de chuva e sol estonteante, aglomerados em meio a milhares de desconhecidos.
Brigamos pelo melhor lugar do sofá e pelo direito exclusivo do uso da TV durante os angustiantes 90 minutos de bola rolando. Ainda que a patroa chie.
Reservamos no congelador as cervejas mais geladas e rosnamos se alguém ousar se aproximar delas. Afinal, esta é a companhia de que precisamos em situações de alta tensão e entrega.
Driblamos compromissos para não perder a hora do apito inicial e até viajamos atrás do time que nos representa. Os chefes que o digam!
Ganhamos e perdemos relacionamentos, amorosos ou laços de amizade. Conexões, a bem verdade, como nos sugere Zygmunt Bauman.
É talvez a única atividade reconhecidamente comercial pela qual nos doamos sem questionamentos, sem consciência entre custo e benefício. Um ato incondicional, por vezes doentio, mas, sobretudo, um autêntico caso de amor à servidão.
De olho neste lucrativo filão, o programa ‘Custe o Que Custar’, da TV Bandeirantes, idealizou o concurso ‘Um louco no Japão’, cuja proposta é insuflar esta irracionalidade enraizada.
Ganha a promoção quem demonstrar a maior loucura pelo Corinthians, segundo time mais popular do país. O prêmio? Uma viagem, com acompanhante, para ver de perto, em dezembro, a final do Mundial de Clubes entre o time brasileiro e o inglês Chelsea.
Lançada em setembro, em menos de um mês a promoção estimulou centenas de vídeos. Na última segunda-feira, 1, quando o ‘CQC’ foi ao ar pela última vez, alguns foram exibidos. Para minha indignação.
Bizarrices de todos os tipos estão reunidas ali: há quem leve chutes e socos para tentar ser escolhido; quem tatue o símbolo do timão na região pubiana; e, pasmem, até quem coma fezes de um bebê para comprovar, em rede nacional, que é o mais louco do bando.
Palavras não dão a correta dimensão do absurdo a que se chega com uma ideia destas.
A dignidade é convidada ao esquecimento diante da promessa de uma viagem a Tóquio, verba irrisória para um programa de TV, que assiste a tudo do alto de sua irresponsabilidade e desrespeito. Uma boa fórmula para angariar audiência, convenhamos.
Abaixo, o vídeo de “Um louco no Japão”:
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