A perenidade de “Admirável Mundo Novo”

Nos idos de 1930 a Europa vivia a ressaca da Primeira Grande Guerra Mundial enquanto se preparava para enfrentar a Segunda. A União Soviética engrandecia seu exército sob o comando de Josef Stálin e tradicionais potências, como Inglaterra e França, viam surgir na vizinha Alemanha uma ameaça que poderia reduzir o mundo à raça ariana.

A disputa territorial que transformava o Velho Continente em uma mina prestes a explodir clamava por armas de destruição mais poderosas. O arsenal bélico fortificava-se em meio à ambição de que algo mais devastador pudesse ser apresentado como diferencial.

Centros de pesquisa buscavam na física e na química elementos para descobrir um composto letal, capaz de detonar milhares de vidas com apenas uma explosão. Nascia assim a bomba atômica, que até hoje nos assombra.

Em 1932, então aos 38 anos, o britânico Aldous Huxley assistia a tudo aquilo com inquietante perturbação. “Admirável Mundo Novo” era publicado naquele ano como resultado da confusão mental que o contexto a que o autor se expusera lhe causou. Huxley centra sua crítica nos aspectos desumanizadores do progresso científico e material, refletidos na estabilidade social por meio de um sistema de controle à base do amor à servidão.

A obra narra uma sociedade num futuro em que pessoas são formadas biologicamente em laboratórios e expostas a condicionamento ao logo de suas vidas. Os Controladores Mundiais são os responsáveis por garantir harmonia às normas de convívio pré-determinadas.

No Centro de Condicionamento e Incubação de Londres, o processo de reprodução em série é feito de acordo com o modelo de castas existente: Alfas e Betas comandam a sociedade composta também por Gamas, Deltas e Ípsilons, relegados a oferecer a força de trabalho. Não há meios de ‘subir na vida’. Uma vez destinado a essa condição, assim sempre será.

A história se passa em 632 “DF” (Depois de Ford), em alusão ao empresário que simbolizou a linha de produção de automóveis no início do século passado nos EUA. Ford, aliás, é apresentado como o Deus de “Admirável Mundo Novo”, que sustenta valores radicalmente diferentes dos praticados por nós.

Conceitos familiares são ignorados ao ponto de a palavra “mãe” causar arrepios nos personagens do livro. Relacionamentos amorosos estáveis estão fora de questão na obra. “Um pertence a todos” é o lema seguido por quem sequer compreende o que são laços familiares, uma clara crítica ao avanço da promiscuidade sexual.

A adoção destes valores se dá pelo fato de, no passado, a relação com filhos e animais terem causado emoções que poderiam levar as pessoas a comprometer a estabilidade social. O novo regime passou a vigorar como alternativa ao enfraquecimento da sociedade que, depois de muitas guerras, viu nos controladores a saída para um mundo mais “organizado” e “justo”.

A dificuldade de assegurar o controle leva à necessidade da criação de uma droga para conter eventuais crises de infelicidade. O delicioso soma é a alternativa de “Admirável Mundo Novo” a quem, por acaso, se sentir de deslocado em uma sociedade tão “perfeitamente estruturada” como essa. “Meio grama para um descanso de meio-dia, um grama para o fim de semana, dois gramas para a excursão ao esplêndido Oriente, três para uma sombria eternidade na Lua”, escreve o autor.

Em 1946, 14 anos depois, Aldous Huxley rascunha num prefácio impressões inéditas sobre a obra. Como um livro que trata do futuro, segundo ele, à época em que foi concedido aos leitores, a ideia era que estes pudessem escolher entre a demência, por um lado, e a loucura. O tema central não é a evolução da ciência em si, mas os aspectos resultantes à medida em que o progresso afeta os seres humanos.

Para Huxley, a menos que nos descentralizemos para usar filosofia, psicologia e biologia a fim de buscar a liberdade dos indivíduos, este horror utópico se abaterá sobre nós na forma de totalitarismos governamentais, nos quais a bomba atômica poderá ser protagonista de disputas sangrentas sob a bandeira da estabilidade social.

A previsão era que a cena futurista de “Admirável Mundo Novo” levasse 600 anos para se consumar. Na revisão, o prazo foi encurtado para 100 anos. Ainda temos 20 anos até lá…

Se passaram oitenta anos da escrita da obra em questão. O estado de alerta chega à sobremodernidade como uma realidade propagada e absorvida globalmente.  Debaixo de uma rede de intenções econômicas, os Estados Unidos lidera um grupo de nações, principalmente as integrantes do G5, sob o argumento de garantir segurança e liberdade por meio de controle da tecnologia atômica e da força bélica.

A obra de Huxley permanece mais atual do que nunca, assim como 1984, de George Orwell.  Instigam os acontecimentos que ainda estão no porvir do nosso mundo, com uma questão fundamentanda na obra do autor.  Huxley teria acertado em cheio ao traçar o status quo da nova modernidade, ou estamos apenas adentrando na ante-sala do Admirável Mundo Novo?

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